'Maior hack da história': Binance estima US$ 6,3 bilhões em perdas e promete cobrir todo prejuízo

Investigação preliminar aponta o notebook comprometido de um engenheiro de DevOps como porta de entrada; cerca de US$ 3 bilhões já foram congelados, segundo a corretora.

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  • TRM Labs e Chainalysis atribuem o roubo ao TraderTraitor, unidade hacker ligada ao Estado norte-coreano.
  • Saques seguem suspensos, com retomada prevista em até 48 horas; depósitos funcionam normalmente, segundo a Binance.

A Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo em volume e número de clientes, estima em cerca de US$ 6,3 bilhões o impacto total do ataque hacker sofrido na quinta-feira, 29 de outubro. Trata-se do maior roubo de criptoativos jamais registrado. Em nota oficial publicada na noite de quinta, a empresa informa que a investigação inicial aponta para o notebook comprometido de um engenheiro de DevOps, área que reúne desenvolvimento e operação de sistemas. O acesso permitiu ao atacante entrar em um contêiner de serviço, ambiente isolado em que roda parte dos sistemas da corretora, e enviar transações de saque não autorizadas.

A Binance afirma não ter encontrado evidência de vazamento de chaves privadas de carteiras. Segundo a nota, cerca de US$ 3 bilhões já foram congelados na blockchain com ajuda de parceiros, e as perdas serão cobertas pelo SAFU (Secure Asset Fund for Users), fundo de emergência da corretora, e por recursos próprios da empresa. A Binance revogou a autorização do endereço afetado e acionou autoridades policiais e empresas de inteligência de blockchain para rastrear e recuperar os fundos.

O co-CEO Richard Teng repetiu no X que as conclusões preliminares indicam o notebook do engenheiro como ponto de partida e que nenhuma evidência de vazamento de chave privada foi encontrada:

"Para deixar claro: o atacante não usou simplesmente as permissões de um engenheiro, e isso não foi uma única ação de 'um clique'. (...) Nossa investigação não atribuiu responsabilidade a nenhum indivíduo."

Em atualização publicada na manhã desta sexta-feira (30), a Binance informou que a investigação encontrou "pontos adicionais de violação" além do notebook e que segue investigando os fatos com as autoridades policiais. A corretora não detalhou esses pontos.

De acordo com a TRM Labs, empresa de inteligência de blockchain, US$ 6,36 bilhões deixaram carteiras da Binance em dez blockchains, considerando o preço dos ativos no momento do ataque. O valor é cerca de quatro vezes o dos US$ 1,5 bilhão levados da Bybit em fevereiro de 2025, até então o maior hack do setor.

Ataque foi preparado 36 horas antes, segundo a TRM Labs

O ataque começou às 17h05 de quinta-feira e drenou a maior parte dos recursos em cerca de 20 minutos das redes Ethereum, Bitcoin, Tron, XRP Ledger, Solana, Arbitrum, Optimism, Base, Avalanche e Polygon, segundo a TRM. A preparação começou ao menos 36 horas antes, com três saques do Tornado Cash, misturador que dificulta o rastreamento de transações, na manhã de 28 de outubro, e transferências de teste para carteiras do próprio hacker.

Na Ethereum, o hacker usou o EIP-7702, padrão da rede que permite a uma carteira delegar o controle a um contrato inteligente, para transformar uma carteira quente da Binance, conectada à internet, em um repassador de fundos sob seu comando. O hacker preparou 50 autorizações pré-assinadas, cada uma para um nonce, o número sequencial das transações da carteira, de modo que uma delas fosse válida no momento da execução. Uma única transação, às 17h24, retirou 167.464 ETH e outros 63 tokens, entre eles 1,615 bilhão de USDT.

A TRM avalia que a causa mais provável do ataque é o comprometimento da infraestrutura que assina as transações das carteiras quentes da Binance. A Blockaid contou 11 chaves de carteiras quentes da corretora assinando transferências para um endereço criado minutos antes.

TRM e Chainalysis apontam grupo norte-coreano TraderTraitor

A TRM atribui o ataque, "com alto grau de confiança", ao TraderTraitor, unidade hacker ligada ao Estado norte-coreano, também rastreada como Lazarus Group e APT38. O FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal dos EUA) apontou o mesmo grupo como autor do ataque à Bybit. A Chainalysis referendou a conclusão da TRM com "alto grau de confiança". A Binance não nomeou os responsáveis e afirma trabalhar com as autoridades policiais para confirmar a identidade dos criminosos e levá-los à Justiça.

O investigador de dados on-chain ZachXBT identificou na madrugada desta sexta-feira recursos roubados da Binance e da Bitget reunidos no mesmo endereço, depois de passarem pelo THORChain, protocolo que permite a troca de ativos entre blockchains diferentes. Segundo o investigador, o ataque à Bitget foi atribuído ao TraderTraitor, grupo que tem sobreposição com ataques anteriores, como o do Kelp DAO. "Isso indica que o mesmo agente provavelmente está por trás dos dois incidentes", escreveu  ZachXBT no X.

A Bitget detectou em 24 de setembro transferências não autorizadas de carteiras quentes, com perda de US$ 388 milhões, segundo a CEO Gracy Chen. A executiva atribuiu o ataque a uma vulnerabilidade em um produto de segurança de terceiros, que deu ao invasor credenciais internas de alto nível usadas para emitir ordens fraudulentas de saque.

Tether e Circle respondem pela maior parte dos US$ 3 bilhões congelados

USDT e USDC têm emissores centralizados, capazes de bloquear tokens em endereços específicos da blockchain. Paolo Ardoino, CEO da Tether, informou o congelamento de mais de 1,567 bilhão de USDT, e Jeremy Allaire, CEO da Circle, o de mais de 800 milhões de USDC, em coordenação com autoridades policiais. Pela contagem da TRM até as 21h30 de quinta-feira, os bloqueios somavam cerca de 1,77 bilhão de USDT e 825 milhões de USDC, além de 40,5 milhões de RLUSD, da Ripple, 27,8 milhões de USD1, da World Liberty Financial, e cerca de US$ 30 milhões em ETH e ARB congelados pelo Conselho de Segurança da Arbitrum.

Os bloqueios incluem apenas tokens cujos emissores mantêm controle centralizado. Antes dos congelamentos, o hacker vendeu cerca de 325 milhões de USDT a formadores de mercado pelo UniswapX, sistema de ordens da corretora descentralizada Uniswap, por aproximadamente 122.300 ETH, cerca de 10% abaixo do preço de mercado, segundo a TRM. No protocolo de empréstimos Aave, depositou 60 milhões de USDT como garantia e tomou cerca de 19.760 ETH, o que levou o Aave a congelar os mercados afetados.

O atacante mantém mais de 420 mil ETH e 18.270 BTC, cerca de US$ 2,4 bilhões fora do alcance de qualquer emissor, segundo a TRM. Os endereços são monitorados pela Arkham.

Binance promete cobrir perdas com o SAFU e recursos próprios

Às 21h04 de quinta-feira, a cofundadora e co-CEO Yi He escreveu no X que "a Binance vai cobrir todas as perdas do ataque". A nota oficial publicada duas horas depois especificou a origem dos recursos: o SAFU e o próprio caixa da empresa.

Criado em 2018, o SAFU guarda cerca de US$ 1 bilhão em Bitcoin. Foi com ele que a Binance cobriu o roubo de 7 mil BTC, então cerca de US$ 40 milhões, em maio de 2019. Antes do ataque, a corretora mantinha cerca de US$ 144 bilhões em ativos na plataforma, segundo o DefiLlama; os US$ 6,3 bilhões estimados equivalem a cerca de 4,4% desse total.

A Binance 14, carteira esvaziada no Ethereum, constava do relatório de prova de reservas divulgado em 1º de outubro. Na data, a corretora mantinha exatamente o volume de Ether devido aos clientes, índice de reservas de 100%. Os cerca de 204,5 mil ETH retirados representam aproximadamente 5,6% dessas reservas. A Binance informa na nota que publicará uma prova de reservas atualizada ao fim das investigações.

À 1h17 desta sexta-feira, Yi He informou que os saques devem ser retomados em até 48 horas, depois de melhorias no serviço de saques e nos controles de endereços, e que os depósitos funcionam normalmente. Na atualização mais recente, a Binance manteve a previsão de retomada dos saques em 45 horas.

Ataque ocorre na véspera do prazo do Banco Central para corretoras no Brasil

O ataque ocorreu no último dia da migração das contas de clientes brasileiros para a Binance Brasil Corretora de Câmbio e Valores Mobiliários, instituição autorizada pelo Banco Central (BC). Nesta sexta-feira (30) termina o prazo para que prestadoras de serviços de ativos virtuais já em atividade no país peçam autorização ao BC, previsto na Resolução BCB nº 520. A Binance protocolou em 23 de outubro o pedido da BBrasil, sociedade prestadora de serviços de ativos virtuais (SPSAV) criada para a transição.

De acordo com a corretora, a custódia dos ativos virtuais de clientes brasileiros fica com a Nest Clearing and Custody, regulada pela FSRA (Autoridade Reguladora de Serviços Financeiros do Abu Dhabi Global Market).

Liquidações somam US$ 1,54 bilhão em 24 horas

As liquidações de criptoativos somaram US$ 627,7 milhões na primeira hora após o ataque, 97% delas em posições compradas, segundo dados da CoinGlass. Em 24 horas até as 4h33 desta sexta-feira, o total chegou a US$ 1,54 bilhão, com cerca de US$ 1,30 bilhão em posições compradas e cerca de 239 mil traders liquidados.

O Bitcoin, cotado a US$ 80.327 às 17h15 de quinta-feira, antes do ataque, chegou a US$ 76.320 na madrugada e era negociado a US$ 77.375 às 7h da sexta-feira, 30, em queda de 3% em 24 horas, de acordo com dados da CoinGecko. O BNB, token da Binance, que caiu a US$ 692 na noite de quinta, era cotado a US$ 702,45, em queda de 4,2% em 24 horas, também segundo a CoinGecko.

Em relatório enviado a clientes em 22 de outubro, Alex Thorn, chefe de pesquisa da Galaxy, afirma que o mercado de baixa do Bitcoin terminou em 30 de junho e que desde então o ativo entrou em fase de acumulação. A tese se apoia na recuperação da média móvel de 50 semanas em setembro, depois de 44 semanas abaixo dela. A mínima desta madrugada ficou 6,2% abaixo dos US$ 81.391 que serviram de preço de referência ao relatório. No X, avaliando os impactos do ataque, Thorn comentou:

"O Bitcoin está despencando com a notícia desta noite, negociado por cerca de US$ 76,8 mil enquanto escrevo. A média de 50 semanas está em US$ 76,1 mil. A invalidação da tese deste relatório exige um mês abaixo da média de 50 semanas sem recuperação, e eu disse que quedas abaixo dela poderiam acontecer. Mas a média de 50 semanas continua sendo o nível-chave a observar."

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