A alta de 8,36% do dólar em 26 de outubro, primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), opõe duas leituras sobre o câmbio: a de um ruído eleitoral, com efeito de curto prazo, e a de um prêmio de risco fiscal que continua a limitar a recuperação do real.
Em entrevista exclusiva ao WB3News, João Wedson, fundador da plataforma de análise de dados on-chain Alphractal, afirma que o movimento é provavelmente um “ruído eleitoral, algo bastante comum nos mercados financeiros”, e que a tendência do câmbio continua a depender de fatores estruturais.
Danillo Uliana, analista da WeSearch, plataforma de pesquisa em criptoativos, projeta o dólar em torno de R$ 5,40 em três meses, R$ 5,50 em seis meses e R$ 5,60 em doze meses, em análise enviada com exclusividade ao WB3News. As projeções partem do “novo patamar observado após a eleição”, e a expectativa do analista é de “pressão moderada sobre o real, com oscilações importantes durante o caminho”.
O dólar à vista fechou a R$ 5,4066 em 26 de outubro, depois de superar R$ 5,60 pela manhã, na maior alta diária desde 5 de março de 2003, segundo a Reuters. O Ibovespa caiu 13,88%, a maior queda desde março de 2020, e a B3 acionou por volta das 10h o circuit breaker, mecanismo que interrompe os negócios em quedas bruscas, com suspensão de 30 minutos.
O resultado do segundo turno contrariou as apostas dos mercados. Durante a votação, das 8h às 17h de 25 de outubro, a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na Polymarket oscilou entre 76% e 82%, mas despencou assim que a apuração começou, às 19h, até chegar a zero. Em 5 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno, em que Flávio terminou à frente de Lula, o dólar chegou a cair 4,90% na abertura dos mercados, a R$ 4,95.
Nos dois pregões seguintes ao segundo turno, o dólar recuou 1,07% e 0,04% e fechou a R$ 5,3466 em 28 de outubro, segundo a Reuters. O recuo devolveu cerca de 14% da alta de 26 de outubro.
“Não projeto a repetição desse choque: considero que parte do risco já foi incorporada à cotação, mas pode continuar limitando uma recuperação sustentada do real”, afirma Uliana.
A Selic está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro, e o Federal Reserve (Fed) manteve em 28 de outubro a taxa básica dos Estados Unidos na faixa de 3,75% a 4,00% ao ano, por 10 votos a 2 — os dois votos dissidentes defendiam alta. A diferença nominal entre as taxas se aproxima de dez pontos percentuais, segundo Uliana:
“O principal desafio é compreender o equilíbrio entre duas forças: o elevado diferencial de juros, que favorece a moeda brasileira, e a deterioração das expectativas fiscais, que amplia o prêmio de risco exigido pelos investidores.”
O diferencial pode favorecer a entrada de recursos, mas o investidor também considera inflação, risco, custos e variação cambial. “Juros maiores não representam ganho garantido”, afirma Uliana.
A dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 11,1 trilhões, em agosto, segundo as Estatísticas Fiscais do Banco Central (BC). Nos 12 meses até agosto, o déficit nominal, que soma o resultado primário aos juros da dívida, chegou a 9,48% do PIB, e os juros nominais, a 8,86% do PIB.
“Minha preocupação é que a persistência dessa dinâmica mantenha elevado o prêmio de risco exigido pelos investidores, dificultando uma redução sustentável dos juros de longo prazo”, afirma o analista da WeSearch, que condiciona a evolução do endividamento ao crescimento econômico e à capacidade de produzir resultados fiscais mais robustos.
O M2, agregado monetário que inclui o papel-moeda em poder do público, os depósitos à vista, a poupança e os títulos emitidos pelas instituições financeiras, cresceu cerca de 16% no Brasil em 2026 quando medido em dólares, atingindo US$ 1,6 trilhão, segundo o World Macro Map da Alphractal.
O avanço é o sexto maior entre mais de 50 economias monitoradas pela plataforma, e as cinco à frente, da República Democrática do Congo à Islândia, têm oferta monetária menor. Na publicação compartilhada no X, Wedson ressalva que parte do crescimento reflete o câmbio, e o M2 é um gatilho importante para confirmar uma possível queda do dólar frente ao real:
“O Brasil vem apresentando uma expansão significativa de sua liquidez monetária. O M2 brasileiro, inclusive quando convertido para dólares, apresentou crescimento expressivo nos últimos anos. Esse movimento merece atenção, principalmente quando analisado em conjunto com o comportamento do mercado acionário, do câmbio e dos fluxos de capital.”
Mesmo depois de 26 de outubro, o dólar acumula queda de 2,59% frente ao real em 2026, segundo a Reuters. O diferencial de juros, que Uliana aponta como a força a favor da moeda brasileira, também aparece entre os fatores listados por Wedson:
“O dólar também perdeu força em relação ao real em determinados períodos recentes, embora essa trajetória não tenha sido linear. Esse comportamento pode refletir uma combinação de fatores, incluindo o diferencial de juros, a liquidez internacional, os fluxos de capital e as expectativas sobre a economia brasileira.”
O investimento direto no país somou US$ 88,3 bilhões, ou 3,43% do PIB, nos 12 meses encerrados em setembro, diante de um déficit em transações correntes de US$ 60 bilhões no mesmo período, segundo dados do BC divulgados em 26 de outubro. As reservas internacionais fecharam setembro em US$ 362,8 bilhões.
“Esses dados apoiam a avaliação de que uma crise por escassez de financiamento externo não deva ser o cenário central. Ainda assim, não impedem saídas de capital ou novas depreciações”, avalia Uliana.
Em publicação no X em 28 de janeiro, Wedson escreveu que o dólar deve continuar perdendo força frente ao real nos próximos anos e que os países da América do Sul tendem a ganhar relevância econômica na próxima década:
“Minha visão não é política. Ela se baseia em oferta e demanda, nos fluxos globais de capital e nas múltiplas dependências internacionais ligadas ao Brasil — commodities, energia, alimentos e cadeias produtivas.”
A Serra Verde, mineradora de terras raras de Minaçu (GO), fechou em fevereiro um financiamento de US$ 565 milhões com a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), que inclui uma opção de participação minoritária para o governo americano. O acordo pode favorecer o Brasil, segundo Uliana:
“Para o Brasil, o desafio será converter esse interesse em investimentos que ampliem o processamento local, a capacidade industrial e a produtividade. Seus efeitos sobre exportações e fluxos cambiais dependerão da execução dos projetos e deverão ser observados principalmente no médio e longo prazo.”
No petróleo, exportar a preços maiores ajuda as receitas brasileiras, e energia mais cara pressiona inflação, custos e juros, segundo o analista. “O efeito líquido depende da combinação desses canais”, afirma.
O presidente Lula ainda não anunciou o ministro da Fazenda do quarto mandato, mas o nome será revelado até o fim de 2026, segundo o presidente do PT, Edinho Silva. A definição da equipe econômica e a sinalização dos planos do governo pesam no curto prazo, segundo a análise de Uliana:
“Nos próximos três meses, vejo o câmbio oscilando em torno de R$ 5,40 enquanto o mercado avalia a configuração da equipe econômica e os compromissos fiscais para o novo mandato. Os juros elevados e os recursos externos disponíveis ajudam a amortecer a pressão. O que pode mudar essa leitura é a qualidade das sinalizações e das medidas anunciadas.”
Em seis meses, com o Orçamento de 2027 em execução, o foco deve migrar das promessas para os resultados, segundo o analista. O cenário de R$ 5,50 supõe que persistam dúvidas sobre a trajetória da dívida. Uma eventual melhora consistente das contas públicas poderia alterar a projeção.
“Em doze meses, o nível de R$ 5,60 pressupõe que o Brasil ainda precise oferecer uma remuneração adicional relevante para compensar o risco percebido pelos investidores. Também pressupõe que o ambiente internacional não traga um alívio duradouro suficiente para neutralizar essa pressão”, acrescenta Uliana.
No X, na manhã de 26 de outubro, em pleno pregão de alta, Wedson escreveu que o par USD/BRL está no estágio final de uma fase prolongada de distribuição, que ainda pode levar alguns meses e, em tese, ser seguida por um mercado de baixa.
No depoimento ao WB3News, o fundador da Alphractal relaciona a tese à leitura de ciclos de mercado de Richard Wyckoff, desenvolvida há cerca de um século:
“Segundo essa abordagem, períodos prolongados de preços elevados e movimentos laterais podem representar processos de distribuição, nos quais a oferta começa a absorver a demanda antes de uma possível mudança de tendência. Há quem interprete o comportamento do USD/BRL como uma possível estrutura clássica de distribuição. Entretanto, essa hipótese precisa ser acompanhada pela análise da estrutura de preços, do volume e da relação entre oferta e demanda.”
O Boletim Focus divulgado em 26 de outubro pelo BC, com projeções coletadas até 23 de outubro – portanto, antes do segundo turno – apontava o dólar a R$ 5,05 no fim de 2026.
“Um programa fiscal convincente, combinado com inflação mais favorável e menor pressão do dólar global, poderia aproximar a cotação de R$ 5,00. Já uma deterioração fiscal acompanhada de inflação persistente e ambiente externo adverso poderia levá-la acima de R$ 6,00”, avalia Uliana, considerando cenários alternativos para os próximos doze meses.
O analista diz que vai revisar as projeções conforme a execução fiscal, as expectativas de inflação, os juros de mercado e os fluxos externos, e que um corte de juros acompanhado de maior credibilidade pode coexistir com a valorização do real.
“O Brasil dispõe de amortecedores econômicos importantes. Para sustentar uma moeda mais forte, porém, precisará combiná-los com maior confiança na sustentabilidade da dívida pública e avanços de produtividade”, afirma.
A tese de distribuição de Wedson antecede o segundo turno: no post de 28 de janeiro, ele já afirmara que o par USD/BRL saía de uma fase complexa de distribuição.
“Ou seja, os movimentos de curto prazo podem ser influenciados pelas notícias, mas as tendências mais relevantes geralmente dependem de causas que já estavam se desenvolvendo anteriormente”, afirma o fundador da Alphractal.
O bitcoin manteve sua cotação estável em dólar, em torno de US$ 80 mil, enquanto disparava 8,6% em reais, em 26 de outubro.
Henry Oyama, diretor de Estratégia de Investimentos da Hashdex, afirma que a tese de investimento em cripto está ligada à evolução da tecnologia e ao ritmo de adoção por empresas, instituições e governos, num calendário global que não acompanha o ciclo político e econômico de um país específico e "mostra que os criptoativos são uma classe de ativos global":
“O preço desses ativos em dólar depende pouco de decisões e eventos específicos do Brasil. Na segunda-feira, a bolsa brasileira caiu com força e o dólar subiu frente ao real. No mesmo dia, os principais criptoativos ficaram próximos da estabilidade em dólar e subiram em reais, acompanhando o câmbio.”
Na terça-feira (27) e na quarta-feira (28), o dólar recuou frente ao real, e o efeito cambial que o diretor da Hashdex aponta para o investidor brasileiro se inverteu:
“Para o investidor brasileiro, há um segundo benefício. Os criptoativos são negociados majoritariamente em dólar, e por isso uma alocação na classe também diversifica a exposição a moedas e reduz a concentração da carteira no real. Essa característica funciona nos dois sentidos, e uma recuperação do real reduz o retorno em reais.”
O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC se reúne em 3 e 4 de novembro, na mesma semana das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Depois da decisão do Fed em 28 de outubro, dados da Bolsa Mercantil de Chicago (CME) apontam 79,6% de chance de alta dos juros americanos em dezembro.
Wedson destaca que a combinação de ruído eleitoral com uma política monetária mais restritiva do Fed pode afetar o Bitcoin:
“Nas últimas três eleições [de meio de mandato nos EUA], em 2014, 2018 e 2022, o Bitcoin enfrentou períodos de forte volatilidade e quedas expressivas ao longo do último trimestre desses anos. Entretanto, isso não significa necessariamente que as eleições tenham sido a causa direta desses movimentos.”
Nesta quinta-feira, 29, a Polymarket aponta 67% de chances de a oposição democrata conquistar maioria na Câmara e no Senado nos EUA. Assim como ocorreu no Brasil, é possível que os resultados impactem os mercados, conclui Wedson:
“...momentos de tensão política podem desencadear movimentos expressivos de curto prazo, mas não necessariamente alteram a tendência predominante do mercado, que continua dependendo de fatores estruturais, como liquidez, política monetária e condições macroeconômicas.”