Mercado ou regulação: o que explica a queda de 77% no mercado cripto brasileiro em julho

Fernando Rocha, chefe de estatística do Banco Central, cita "governança" e "PLD" das plataformas para explicar queda em julho.

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  • A demanda por criptoativos no Brasil caiu 77% em julho, de US$ 2,6 bilhões no mês anterior para US$ 572 milhões, enquanto na comparação anual o recuo foi de 58,4%.
  • Para especialistas ouvidos pelo Web3News, a queda não pode ser atribuída exclusivamente à regulação.

O Banco Central (BC) divulgou que a demanda por criptoativos no Brasil caiu de US$ 2,6 bilhões em junho para US$ 0,6 bilhão em julho de 2026, um recuo sequencial de aproximadamente 77%. Na comparação anual, a queda é de 58,4% frente a julho de 2025 (US$ 1,4 bilhão).

Os dados foram disponibilizados em 27 de agosto na Nota de Estatísticas do Setor Externo, sob a rubrica "Outros Investimentos". O documento não cobre o mercado como um todo, mas apenas transações envolvendo criptoativos com emissor identificado, movimentados via mercado de câmbio, excluindo o total negociado via corretoras.

Segundo Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatística do Banco Central, a redução no volume transacionado "reflete um momento de reorganização desse mercado de ativos virtuais no contexto de intensificação da regulação e da supervisão de conduta do BC sobre esse setor". Rocha atribuiu a redução na demanda às novas exigências de governança e procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) implementadas pela regulação:

"É um fator importante por trás da redução dos fluxos que a gente observou no balanço de pagamentos, e teremos que ver, nos demais meses, como essa rubrica de transações vai se desempenhar."

Rocha não mencionou explicitamente quais normas poderiam ter impactado o mercado de forma tão acentuada. No entanto, em 1º de julho entrou em vigor a DeCripto, um novo modelo de reporte de transações de criptoativos da Receita Federal — instituído pela Instrução Normativa RFB nº 2.291/2025, em complemento às Resoluções BCB 519, 520 e 521, do Banco Central, divulgadas na mesma semana de novembro de 2025. A norma substitui o modelo da Instrução Normativa RFB nº 1.888/2019, vigente desde 2019, e segue o padrão internacional CARF (Crypto-Asset Reporting Framework) da OCDE.

Na prática, quem opera com criptoativos por prestadoras sediadas no exterior, DEXs ou negociações P2P passou a reportar mensalmente operações a partir de R$ 35 mil, com identificação de beneficiário final e das carteiras de origem e destino — o que inclui permutas entre criptoativos, tokens recebidos via airdrop, staking, mineração ou empréstimo, e transferências para carteiras autocustodiais. Exchanges com conexão ao Brasil passaram a reportar mensalmente cada transação de seus usuários, e o descumprimento das novas regras gera multa de R$ 100 por mês de atraso para pessoa física, de R$ 500 a R$ 1.500 para pessoa jurídica, mais 1,5% a 3% sobre o valor de operações declaradas incorretamente.

Mercado em baixa e custo regulatório

Para os especialistas ouvidos pelo WB3News, as razões para a queda em julho não podem ser atribuídas exclusivamente à regulação.

Guilherme Bissoli, diretor da Coins.Xyz Brasil, afirmou à reportagem que "a leitura de que a regulação derrubou o fluxo esbarra no calendário":

"O pacote que valeu a partir de fevereiro é o mais pesado que esse mercado já recebeu no Brasil: criou a figura da prestadora de serviços de ativos virtuais, enquadrou operação internacional com ativo virtual como operação de câmbio — stablecoin incluída — e passou a exigir identificação das carteiras de origem e destino. Em maio veio o reporte cambial obrigatório em cima disso. E o fluxo cresceu assim mesmo: em junho, a alta foi de 72% contra o ano anterior. Um pacote desse tamanho, que não segurou o fluxo por cinco meses consecutivos, não é boa explicação para um mês isolado."

O executivo da Coins.Xyz atribuiu o declínio às condições globais do mercado:

"O que mudou em julho estava lá fora: bitcoin no menor nível em 21 meses, dez pregões seguidos de saída nos ETFs americanos."

Paulo Camargo, embaixador da OKX no Brasil, avalia que há um "custo regulatório" que está sendo absorvido pelo mercado  à medida que as novas normas regulatórias são implementadas:

O que mudou em julho foi o custo de operar no Brasil. As Resoluções 519, 520 e 521 valem desde fevereiro, mas, com o prazo para as plataformas deixarem de operar com contrapartes não autorizadas se aproximando em outubro, as mesas se anteciparam e começaram a redesenhar a operação. O resultado prático é que um fluxo que liquidava em minutos e custava pouco voltou para o trilho bancário tradicional, com spread maior, tarifa de correspondente e liquidação em dias.

Dados apresentam retrato parcial do mercado brasileiro

Thiago do Amaral Santos, sócio do escritório Barcellos Tucunduva Advogados nas áreas de meios de pagamento, criptoativos e apostas esportivas, ressalta que a queda de julho não deve ser lida como um retrato de todo o mercado cripto brasileiro:

"Não me parece possível, neste momento, atribuir a queda de julho diretamente à DeCripto ou a uma norma específica. Há vários fatores ocorrendo simultaneamente e, antes de tudo, é importante não interpretar a redução de 58,4% como uma queda equivalente de todo o mercado brasileiro de criptoativos."

"O próprio Banco Central reconhece que essa fonte cobre apenas parte do universo de transações com criptoativos", acrescenta Gabriel Lobato, advogado regulatório de ativos digitais do escritório FCM Law. "Na prática, isso significa que mudanças nos canais usados para contratar operações de câmbio podem alterar a série estatística sem que haja, necessariamente, uma queda proporcional da demanda econômica por criptoativos."

Amaral Santos observa que os dados da Receita Federal vinham registrando crescimento do volume declarado ao longo do primeiro semestre. Os dados do próprio BC revelam que de janeiro a julho, o investimento em criptoativos no Brasil somou US$ 15,25 bilhões, contra US$ 7,609 bilhões no mesmo período de 2025. Ou seja, mais do que dobrou, mesmo com o Bitcoin atingindo mínimas locais em torno de US$ 58.000 em junho.

"Julho representa uma ruptura importante, mas ainda não demonstra uma retração estrutural do mercado", acrescenta o advogado.

Amaral Santos também descarta que as obrigações previstas na DeCripto possam ter tido um papel relevante na retração do mercado brasileiro em julho:

"Quanto à DeCripto, há uma coincidência temporal relevante: a nova sistemática passou a alcançar as operações realizadas a partir de 1º de julho, substituindo o modelo de reporte da IN RFB nº 1.888/2019. Isso pode ter produzido algum efeito comportamental, mas não há elementos para afirmar que tenha provocado a queda."

Lobato acrescenta um argumento técnico: como a DeCripto é essencialmente uma obrigação de informação e compliance — não cria proibição, limite quantitativo ou exigência de autorização prévia para negociação de criptoativos —, seu efeito sobre o volume, se existir, seria indireto, e ainda por demonstrar:

"É possível que o aumento das exigências de transparência, identificação e reporte eleve os custos de conformidade e altere o comportamento de alguns participantes. Trata-se, porém, de um impacto indireto, cuja magnitude precisaria ser demonstrada empiricamente."

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Restrição a fundos de investimento pode ter contribuído

Amaral Santos lembra que em 24 de junho o BC notificou bancos e fundos determinando a suspensão imediata de operações de câmbio para importação de ativos virtuais sob a alegação de que se trata de intermediação irregular, e não simples alocação patrimonial.

Na ocasião, o spread em operações com stablecoins saltou de cerca de 0,1% para 0,7%, chegando a superar 2% em um único dia. Ao reduzir a liquidez nos livros das corretoras, a medida pode ter impactado negativamente o mercado, segundo o advogado:

"Não houve uma proibição geral à aquisição de stablecoins por fundos, mas determinadas estruturas foram questionadas e houve relatos de redução de liquidez e aumento dos spreads. Como isso ocorreu imediatamente antes de julho e atingiu canais utilizados para aquisição e distribuição de ativos virtuais, pode ter contribuído para a redução dos fluxos externos, embora ainda não seja possível estabelecer uma relação causal."

Dois dias depois, em 26 de junho, o BC se reuniu com bancos e corretoras, reconheceu o trabalho de separar operação própria de arbitragem e abriu diálogo com o Departamento de Supervisão de Conduta (Decon) — o spread recuou para 0,5% na sequência, e a autarquia liberou a arbitragem dentro do livro de ordens das corretoras, reconhecendo o papel dos formadores de mercado na liquidez dos pares em reais.

Apesar da abertura para o diálogo, o tema segue em aberto e possivelmente esteja afetando o mercado. "Esse ponto é relevante porque julho foi o primeiro mês completo após essa intervenção", diz Lobato. "Como a estatística do BC é construída com base em contratos de câmbio, é plausível que uma mudança relevante nesses canais tenha afetado diretamente o volume capturado pelo indicador"

A conjunção de três fatores estruturais justifica a redução do volume no mercado brasileiro, mas ainda não pode ser tratada como uma tendência:

"Minha leitura, portanto, é que ainda é cedo para atribuir a queda à DeCripto ou a uma norma isoladamente. O resultado de julho pode estar relacionado a uma combinação entre o novo ambiente regulatório, a intensificação da supervisão e a revisão de estruturas utilizadas para aquisição, arbitragem e distribuição de stablecoins. Os próximos dados do BC e os primeiros números da DeCripto serão importantes para verificar se houve uma redução efetiva e persistente da atividade ou, principalmente, uma reorganização dos fluxos e da liquidez durante a transição regulatória."

Lobato concorda e acrescenta que os próximos meses oferecerão um panorama mais amplo sobre a reestruturação do mercado brasileiro em função da regulação:

"Para chegar a uma conclusão mais firme, seria necessário observar os próximos meses e, principalmente, ter acesso a uma decomposição dos fluxos por tipo de participante e de operação."


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